Resolvi sair então do completo ócio e falar sobre algo que aconteceu e muito me chamou a atenção. Mas primeiro é preciso contextualizar todo o acontecido.

Em Belém, fiquei numa escola adaptada para uma articulação de feministas do Brasil inteiro. E aí é muito massa porque tu conhece gente de todos os lugares, sabe como é o contexto de cada estado, além de outras trocas culturais (toda vez peço para as meninas de Pernambuco fazerem turbante em mim).
Um dos segmentos/públicos/identidades/sujeitos é o das lésbicas e bissexuais que fazem parte do movimento feminista. E um dos debates pelo qual mais me interesso é o da diversidade sexual. Além disso, muitas das minhas amigas que fizeram parte da caravana de Fortaleza são lésbicas e militam no movimento LGBTT (lésbicas, gay, travestis e transexuais) e eu adoro demais as criaturas.
Talvez por conta da proximidade com as meninas, pelo meu modo de agir (que para algumas pessoas não é hetero - e agora alguém me explique como é o modo hetero de ser) e pelo fato de eu não chegar nos espaços "esclarecendo": "Oi meu nome é Sheryda, estou aqui mas/e sou hetero", algumas pessoas pensaram ou pensam que sou lésbica.

Uma pessoa chegou a me confundir com uma travesti ou transexual, porque de acordo com ela, eu teria um modo "espalhafatoso que é muito próprio das travestis e não de mulheres heterossexuais". Isso me fez rir muito e me deixou be-ge!
Esse tipo de dúvida nunca me incomodou, afinal, quem sou para tirar o benefício da dúvida das pessoas, né? O problema é que ouvi umas falas bastante agressivas, e me senti discriminada por conta da minha orientação não se enquadrar em comportamentos "próprios".
Não deixei de expressar esse desconforto, e isso foi massa porque gerou um debate sobre como o chamado radar gay pode delegar padrões assim como a sociedade heternormativa faz. As vezes copiamos nossos opressores sem querer.
Uma das meninas de Fortaleza, e que é lésbica, questionou também a retirada do "S" de Simpatizante da sigla, que antes era GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Quer dizer, quem sou eu? Uma hetero que frequenta debates e espaços LGBTT e de alguma forma apóia e milita na causa. Mereço uma letra? Não sei, não dá pra mudar o sujeito político do negócio, né?
Da mesma forma, quem são os homens que se interessam pelas discussões de gênero e adotam práticas igualitárias e feministas no dia-a-dia e nos demais espaços políticos? São feministas? Algumas acham que os homens podem ser feministas. Outras acham que não, porque no feminismo, as mulheres é quem são sujeito. Mas então, quem são eles? Polêmicas, polêmicas, adoro vocês...
Mas voltando ao acontecido
Esse tipo de comportamento era muito comum entre alguns antigos amigos/machistas/homens/homofóbicos que eu tinha. Para eles, qualquer debate contra a homofobia e lesbofobia era um sério motivo para ter sua heterossexualidade posta em dúvida. Como se o debate contra o preconceitos fosse uma responsabilidade somente da sociedade LGBTT e não de todos.

Para se ter uma idéia, em ocasião da Parada pela Diversidade de 2006, comprei uma camiseta amarela com um arco-íris na frente e dizeres anti homofóbicos nas costas. Isso gerou piadas e agressões verbais, porque de acordo com eles, eu tava dando a maior pinta. O mesmo quando escrevi um artigo para o jornal do bairro a respeito da homofobia.
Quer dizer, se você usar uma camiseta dizendo que as drogas matam, tipo, normal. Ninguém teme represálias a esse slogan. E ninguém vai te dizer também que você usa drogas até porque - de acordo com o slogan - se usasse já estaria morto. (Redução de danos! Redução de danos!)
Isso acontece porque a sociedade aprova a luta contra as drogas. A luta contra a discriminação sexual é apenas falsamente aceita e ainda por cima um pouco temida. O povo morre de medo de ter a
heterosexualidade questionada, como se isso fosse uma enorme ofensa e imediatamente parasse seus batimentos cardíacos.
Agora, se eu me descobrisse lésbica (me ensinaram que você não vira nada, e sim se descobre) confesso que ficaria decepcionada. Talvez até me convencesse de que tem um comportamento x e y para cada orientação e que um ser humano hetero não pode se interessar tanto por discussões que teoricamente não são dele. Claro que estou brincando, afinal, não sou o modelo pro mundo todo nem a representação da verdade na Terra.
Mas por enquanto, vou continuar vivenciando minha orientação sexual da foma que a compreendo, sem ficar me preocupando se o diacho do radar gay realmente funciona ou não.