quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Não foi só com a Alanis

Quem mora em Fortaleza querendo ou não está sabendo da garota de 5 anos que foi raptada, estuprada e morta há uma semana. Para quem não sabe ou não mora em Fortaleza, vou contar o que houve (e por isso o post ficou tão grande). Alanis Maria estava com a família numa igreja do bairro Conjunto Ceará. Enquanto os fiéis se cumprimentavam durante o “abraço da paz”, um homem a levou do lugar e desapareceu. Nas horas seguintes a família da menina promoveu uma intensa mobilização no bairro, espalhando fotografias e dividindo-se em grupos para buscas juntamente com a polícia.

A mobilização da comunidade chamou a atenção da imprensa local que também divulgou as fotos da menina e fez com que a cidade acompanhasse de perto o que estava acontecendo. No dia seguinte por volta das 17:00, o corpo da menina foi encontrado num terreno próximo a um canal no bairro Antônio Bezerra. Por coincidência eu estava lá nesse dia, pois o Potô mora a poucos metros do local. Depois que cheguei da escola onde estou lecionando (depois conto mais sobre isso), percebi a intensa movimentação de helicópteros e as pessoas se aglomerando na rua. Ele não estava em casa na hora, tinha ido a uma locadora com o sobrinho, por isso eu e a sogra ficamos nervosas já que não sabíamos o que estava acontecendo. Depois veio a notícia de que a criança havia sido encontrada. Chegamos inclusive a ouvir que ela ainda estava viva, o que não é verdade de acordo com as matérias que venho acompanhando. Ao contrário dos curiosos que foram ao local ver o cadáver ou mesmo a movimentação, Potô e eu ficamos em casa tentando pensar em outras coisas para afastar a sensação horrível que tomou conta de todos na comunidade.

Antes de ontem o suspeito (na verdade ele já confessou) foi preso (juro!) e a polícia vem tentando protegê-lo de um linchamento, pois desde que o corpo da criança foi encontrado uma multidão cobra por justiça (ou vingança?) na frente da delegacia do bairro e arremessa pedras contra viaturas onde o suspeito possa estar. A propósito, o acusado já tem antecedentes de estupro, mas estava em liberdade.

O caso de Alanis Maria não sai da boca dos fortalezenses e nem da pauta dos jornais da cidade. Alguns desses, sensacionalistas que são, fazem discursos longos, temperados e esgotam o assunto até onde não dá mais. O velório da menina e o enterro pareciam assim, quando um artista morre. A missa de sétimo dia, realizada ontem à noite, tinha tanta gente que não coube todo mundo na igreja.

Aí eu tava pensando...

Desde que tudo isso começou eu venho observando a reação e os comentários das pessoas. Todo mundo horrorizado, revoltado e muito triste pelo que aconteceu e sempre chegando e dizendo “como é que um cara faz um negócio desses com uma criança...” Mas o que mais ouvi mesmo foram as pessoas dizendo o quanto a Alanis era linda. “Loirinha do olho verde, coisa mais fofa.”
Não me leve a mal. Não estou dizendo que é ruim que a população esteja revoltada e sensibilizada com o assunto. Isso é muito bom, pois abre um pouco de espaço para um debate que precisa ser travado constantemente. O meu questionamento é: por que as pessoas não ficam assim em TODOS os casos de abuso sexual, estupro e outras violências envolvendo crianças e adolescentes? Quase todos os dias saem notícias nos jornais falando de abuso sexual dentro da própria família, cometidos pelos próprios pais muitas vezes. Mas são notícias pequenas, muitas não ultrapassam nem uma pequena coluna no canto inferior da página. Mas quando acontece com uma menina loirinha de olho verde, coisa mais fofa, aí a gente se revolta, é isso? E as outras? Porque isso não aconteceu só com a Alanis. A família dela não foi a única que sofreu com esse tipo de crime bárbaro nas últimas semanas.

Não sei se a sensibilidade das pessoas está diretamente ligada à cor da pele da criança. Mas a verdade é que esse tipo de crime é muito comum e constantemente praticado contra crianças negras, que estão em situação de rua ou sofrem os abusos em casa mesmo. É difícil não pensar no filme Tempo de matar quando o advogado de defesa do homem que matou os estupradores de sua filha (toda a família é preta inclusive a vítima. Já os estupradores são brancos) narra como todo o estupro aconteceu. Diante de um júri emocionado, o advogado diz: agora imaginem que a menina é branca. Acho incrível como o olhar dos jurados muda, perplexos. Porque sim, a cor muda o olhar da gente. Acho que isso não dá para negar. Se não deu para entender, recomendo ver o filme que é muito bom e baseado em fatos reais.

Mas voltando à questão da superficialidade das pessoas. Lembro da vez em que fui a um debate a respeito de exploração sexual contra crianças e adolescentes. Uma pessoa acolá (que acha uma perda de tempo se envolver nessas besteiras de movimento social) disse que era uma perda de tempo, que tinha umas meninazinhas aí que até gostavam, que eram sem-vergonha. Essa senhora, quando assiste a alguns programas policiais mostrando garotas exploradas sexualmente fica dizendo que elas são safadas e não sei o que mais. E agora tava aí querendo ir ao velório da Alanis, uma menina que ela nem conhecia. Queria “prestar solidariedade à família.” Mas tem que ver que a pobre menina foi obrigada a ir, né? Essas outras aí sofrem não, acham até bom. Se vão porque querem não é violência. Nojo, nojo, nojo.

E vem jornal-circo dizer que precisamos proteger nossas crianças. Os mesmos que identificam constantemente na TV vítimas de abuso sexual ou mesmo mostram as imagens de adolescentes infratores, violando o Estatuto da Criança e do Adolescente que (vejam só!) foi criado exatamente para proteger nossas crianças. Reclamam em seus pequenos auditórios dessas pessoas que “querem proteger os pequenos marginais privando a sociedade de conhecê-los e usam a censura para barrar o trabalho dos comunicadores.”

Sejamos francos. Nossa sociedade não quer proteger as crianças. Algumas pode até ser, mas não todas. Porque se a gente quisesse de verdade proteger a todas elas, as mobilizações seriam intensas constantemente, o assunto jamais sairia das pautas jornalísticas e a polícia agiria rápido sempre. Essa pressão popular que é fundamental para concretizar mudanças, não se limitaria a acontecimentos como este que por alguma razão parece mais atrativo e emocionante do que outras centenas. Acho que por o acompanhamento da imprensa ter acontecido desde o início, deixando as pessoas ansiosas por um desfecho. Como se estivessem assistindo a uma novela. Uma pena que a mobilização estruturante seja apenas factual e limitada e seja tratada como mais um drama da vida real a ser esquecido em pouco tempo, juntamente com outros milhares de casos.

5 comentários:

Welton Nogueira disse...

De fato, foi um fato lamentável, mas quantas crianças não são mortas todos os dias e não tem uma nota no jornal?
Pois é, por que uns assassinatos de criança são dignos de nota e outros não? Essa menina se tornou a nossa "Isabela Nardoni". Fato.

sherrylopes disse...

É verdade Welton. Mas existem outras razões para esse envolvimento árduo das pessoas com esse caso específico e talvez role até mais um post sobre isso. O Potô também me prometeu um comentário imenso sobre a questão, então acho que o papo pode esquentar.

Daniela disse...

"Sejamos francos. Nossa sociedade não quer proteger as crianças. Algumas pode até ser, mas não todas."

Brilhante! As lindas, fofas, loirinhas de olhos azuis (e de preferência ricas) são as que comovem.

Eu, que sou professora, vejo como é diferente quando é um menininho qualquer (desses mulatinhos e magrelinhos tão comuns na escola pública) que pára de estudar e quando é uma menininha branca e bonita: "uma moça (menino) tão bonita e parou de estudar...eu tenho tanta pena".

Sou obrigada a ouvir isso de colegas professores como eu.

"Nojo, nojo, nojo" do lado de cá também.

Daniela disse...

ah, sobre o texto respondi lá no blog. Mas pode usar sim (eu jamais imaginei que aquele texto ia repercutir assim. Foi tão doído escrever que quase não escrevo).

ceiça disse...

esses comentários racista,para que haja justiça para uns ou outros é ridículo...POIS,A JUSTIÇA É PARA TODOS...principalmente para quem busca, e não tem sangue de barata nas veias e sim para quem tem sangue de guerreiro,que luta até a morte e faz valer o que é seu de direito.